Pular para o conteúdo
Blog dothNews

IA na redação: onde ajuda e onde compromete a credibilidade do veículo

Mais da metade dos jornalistas brasileiros já usa IA no trabalho, mas a confiança nas notícias está no menor nível já registrado. O que separa o uso que funciona dos incidentes reputacionais que já aconteceram em 2026.

Por Gabriel Novaes
IA na redação: onde ajuda e onde compromete a credibilidade do veículo
IA na redação em 2026

A pergunta que dominava o debate sobre IA nas redações até pouco tempo atrás era "vamos usar ou não?". Em 2026 essa pergunta já está respondida: pesquisa da ESPM em parceria com o boletim Jornalistas&Cia mostra que mais da metade dos jornalistas brasileiros usa ferramentas de IA em alguma etapa do trabalho, sobretudo em redação, apuração e distribuição. A pergunta que importa agora é outra: como usar sem comprometer a credibilidade do veículo — justo no momento em que essa credibilidade está mais frágil do que nunca.

O pano de fundo: confiança em queda livre

O Digital News Report 2026 registrou o menor nível de confiança nas notícias desde o início da série histórica do relatório: 37%. Não é um problema causado pela IA, mas é o cenário em que qualquer erro relacionado a IA generativa cai com muito mais peso do que cairia há alguns anos.

Quando dá errado: dois casos recentes

O jornal alemão Tagesspiegel enfrentou repercussão negativa depois que se descobriu o uso não revelado de IA para gerar artigos de opinião — quebrando a premissa que o próprio Digital News Report 2026 cita como padrão esperado: "humano no controle", em que a ferramenta apoia o processo mas não assume o núcleo do trabalho editorial sem transparência.

No Brasil, veículos como Terra e Giro10 passaram por episódios de uso de fontes fabricadas por IA em matérias, gerando debate sobre ética jornalística e reforçando o alerta de entidades da categoria: aceitar IA generativa sem critério entra em conflito direto com princípios básicos da profissão, como checagem independente e responsabilidade social pela informação divulgada.

Fora do jornalismo tradicional, uma apuração da Aos Fatos em 2026 identificou perfis no TikTok usando IA para criar falsos telejornais, com apresentadores sintéticos e notícias inventadas, imitando visualmente emissoras reais e acumulando milhões de visualizações — um lembrete de que o problema não é só o que a própria redação faz com IA, mas também o que outros fazem se passando por veículos de notícia.

Os três tipos de risco, segundo especialistas

Em mesa-redonda promovida pelo Knight Center for Journalism in the Americas em março de 2026, jornalistas de diferentes países da América Latina resumiram os riscos do uso de IA em três categorias:

  • Riscos editoriais. Alucinações e erros de informação que os modelos às vezes produzem sem aviso.
  • Riscos legais. Alimentar modelos de IA com informações confidenciais, sigilosas ou protegidas por direitos autorais.
  • Riscos de comunidade. Reprodução de vieses e esteresótipos herdados dos dados de treinamento, muitas vezes com critérios do Norte Global mal ajustados a contextos locais.

Uma pesquisa da Thomson Reuters Foundation com jornalistas do Sul Global, ainda de 2024, já apontava o tamanho do descompasso: 81% dos jornalistas pesquisados já usavam IA, mas apenas 13% trabalhavam em redações com políticas formais estabelecidas para esse uso.

O que está funcionando: transparência em vez de terceirização

Um caso relatado por pesquisa da Reglab sobre redações brasileiras ilustra bem o ajuste de rota que muitos veículos têm feito: uma redação que testou coautoria explícita entre jornalista e uma IA interna (assinando matérias em conjunto) acabou descontinuando essa prática depois de perceber insegurança da própria equipe quanto ao impacto na credibilidade. A ferramenta passou a ser tratada como recurso interno de apoio — nunca como autora — o que reduziu o desconforto sem abrir mão dos ganhos de produtividade em tarefas como análise de planilhas extensas e padronização de estilo conforme o manual de redação.

Também têm surgido funções dedicadas a mediar essa relação entre tecnologia e jornalismo: o Financial Times criou o cargo de editora de IA em 2023; o New York Times mantém equipe voltada a ferramentas de aprendizado de máquina aplicadas a busca e organização de conteúdo; e no Brasil o UOL já conta com um editor especializado em IA.

Boas práticas para redações menores

  • Defina por escrito o que a IA pode e não pode fazer. Redação sem política formal é a exceção perigosa que a pesquisa da Thomson Reuters identificou — e é exatamente o vazio que costuma preceder um incidente público.
  • Trate IA como ferramenta, não como autora. O caso da coassinatura descontinuada mostra que dar crédito de autoria a uma IA tende a gerar mais desconforto do que benefício, mesmo quando o uso em si é legítimo.
  • Mantenha checagem humana obrigatória antes da publicação. Alucinações não avisam que são alucinações — a revisão editorial é a única barreira confiável.
  • Nunca alimente modelos com dados sigilosos de fontes ou apuração em andamento. O risco legal apontado pelos especialistas do Knight Center vale tanto para ferramentas gratuitas quanto pagas, se os termos de uso permitirem retenção de dados.
  • Seja transparente quando IA for usada de forma substancial. O caso Tagesspiegel mostra o custo reputacional de não avisar; divulgar o uso costuma custar bem menos do que esconder.

O que fica de lição

A IA já deixou de ser novidade nas redações — virou rotina. O que ainda separa os casos bem-sucedidos dos incidentes reputacionais é simples de enunciar e difícil de sustentar no dia a dia: política clara de uso, revisão humana sem exceção, e transparência com o leitor quando a ferramenta participa de forma relevante do processo. Continua valendo o princípio que já discutimos sobre como o jornalismo pode combater a desinformação: a credibilidade se constrói com processo verificável, não com promessa de que "não vai acontecer aqui".


Quer ajuda para estruturar uma política de uso de IA na sua redação? Fale com a equipe do dothNews.