Perfil do Jornalista Brasileiro: o que os dados da pesquisa mostraram
Os resultados da pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro 2021 já saíram: perfil demográfico mudou pouco, exceto pelo avanço de jornalistas negros (23% para 30%), enquanto condições de trabalho e saúde mental pioraram de forma consistente.
Em 2021 noticiamos aqui o lançamento da pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro, um levantamento nacional que buscava atualizar o retrato da profissão feito em 2012. Os resultados saíram progressivamente desde então — o relatório nacional em 2022, e os últimos relatórios regionais só foram fechados agora, no final de 2025. Com todos os dados consolidados, vale voltar ao tema e ver o que, de fato, mudou na última década.
Os números da pesquisa
A pesquisa "Perfil do Jornalista Brasileiro 2021", coordenada pela UFSC em parceria com a Rede de Estudos sobre Trabalho e Identidade dos Jornalistas (RETIJ/SBPJor), coletou 7.029 respostas entre agosto e outubro de 2021. Após etapa de saneamento dos dados, 6.650 foram consideradas válidas — 6.594 de todas as unidades da federação e 56 de jornalistas atuando no exterior. É a segunda edição do estudo, a primeira desde 2012, quando 2.731 respostas formaram a base de comparação.
O perfil demográfico mudou pouco — com uma exceção importante
Assim como em 2012, o jornalista brasileiro típico continua sendo mulher (58%), branca (68,4%), solteira (53%) e com até 40 anos. A principal mudança estrutural foi na composição racial da categoria: jornalistas negros passaram de 23% em 2012 para 30% em 2021, um avanço de sete pontos percentuais que pesquisadores associam à combinação de políticas de cotas nas universidades, ações por diversidade no mercado e maior autoidentificação impulsionada pelas discussões antirracistas da última década. Já a presença de jornalistas indígenas segue praticamente estável, em 0,4% — o mesmo percentual do levantamento anterior.
O dado que mais preocupa: saúde e condições de trabalho
Se o perfil demográfico mudou pouco, as condições de trabalho pioraram de forma consistente. A pesquisa mostrou que 66,2% dos jornalistas se sentem estressados no trabalho, e 34,1% já foram diagnosticados clinicamente com estresse. Os dados reforçam um quadro de precarização crescente da profissão, tema que já discutimos aqui em relação ao aumento da violência contra jornalistas no país — outro indicador que aponta na mesma direção de deterioração das condições em que a profissão é exercida.
Por que esses dados importam para quem administra um portal
Para além do interesse acadêmico, esses números têm aplicação prática direta para quem gerencia uma redação:
- Retenção de talento. Níveis altos de estresse clínico apontam para um risco real de rotatividade e afastamento — vale revisar carga de trabalho e prazos antes que isso vire desligamento.
- Diversidade como vantagem editorial, não só social. O avanço na representação de jornalistas negros amplia o repertório de fontes, pautas e olhares que uma redação consegue cobrir — especialmente relevante para portais regionais que cobrem comunidades diversas.
- Benchmark para políticas internas. Ter esses números como referência nacional ajuda a avaliar se a realidade da própria redação está alinhada, melhor ou pior do que a média do setor.
O que fica de lição
A pesquisa confirma uma tensão que já era perceptível no dia a dia das redações: a profissão diversificou sua composição racial, mas não conseguiu reverter a piora nas condições de trabalho. Para quem gerencia equipe editorial, os dois lados desse retrato merecem atenção igual — ampliar a diversidade sem cuidar da saúde da equipe tende a criar exatamente o tipo de rotatividade que mais prejudica a consistência de um portal de notícias no longo prazo.
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